MÚsica Gospel

POR ELVIS TAVARES
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Gamalieu Seme Scaff: 'é possível ser desembargador e músico'

Publicado em 05-10-2017

Texto: Redação Efrata Music

Tags: cantores(as) e bandas  

Seminho Scaff é desembargador no TJPR e guitarrista há mais de 40 anos - Foto: Divulgação
Seminho Scaff é desembargador no TJPR e guitarrista há mais de 40 anos - Foto: Divulgação

A prática de conciliar duas profissões, embora comum nos dias de hoje, especialmente em tempos de crise financeira, pode não ser tão fácil quando se tenta misturar a figura "sisuda" de um homem da lei com a com afabilidade, ainda que aparente, de um músico. O desembargador do Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR) Gamalieu Seme Scaff, conhecido no meio evangélico como o guitarrista e arranjador Seminho Scaff, sentiu na pele essa dificuldade – que, em seu caso, chegou ao ponto do preconceito.

Com mais de 40 anos de experiência na gospel music nacional, tocando com grandes nomes do gênero ou arranjando importantes álbuns, Seminho contou em entrevista a Elvis Tavares, no programa Onde os Fracos Têm Vez (OFTV) do último sábado (30), que enfrentou resistência de colegas músicos quanto à opção de também se dedicar à magistratura.

"Ouvi muita bobagem de pessoas de quem me aproximei, que não me conheciam e insinuavam que eu era músico frustrado. É difícil [conciliar as profissões] porque o juiz precisa ter uma figura austera, enquanto o músico é aquela figura que, ainda que teatralmente, sorri e se mostra simpática. Mas é possível, principalmente pelo fato de servir a Deus. Se o meu Senhor não se envergonhou de tomar a forma de homem, se humilhando até a morte, e morte de cruz, por mim, por que eu vou me envergonhar de louvar o nome d'Ele? Então, mesmo sendo juiz, nunca deixei de tocar, graças a Deus", relatou.

O nome de Seminho Scaff pode ser encontrado facilmente em fichas técnicas de álbuns da música evangélica. Um de seus primeiros trabalhos foi com o Grupaz, conjunto adventista do final dos anos 1970 e início dos 1980. Mas sua presença é mais recorrente em produções do Pr. Victorino Silva, em diversas épocas da carreira do longevo artista, hoje com 77 anos.

Scaff foi responsável pelo arranjo em forma de bolero dado à versão de Victorino Silva para o clássico Cem ovelhas, originalmente uma guarânia composta pelo mexicano Juan Romero. O pastor gravou a música no LP Não chores mais, de 1983.

A Elvis Tavares, o guitarrista revelou que a ideia surgiu como forma de se diferenciar da conhecida gravação de Ozeias de Paula.

"O maestro Misael [Passos] me pediu para fazer o arranjo de Cem ovelhas para o pastor Victorino. Não sabia na época quem era o autor, mas sabia que [a música] era latina, e o Ozeias de Paula já tinha feito aquela gravação memorável em guarânia. Uma coisa diferente seria fazer em bolero. Eu me lembro que estava encantado com Aquarela, do Toquinho, em que ele, no final, faz um solo de violão muito gostoso. E tinha uma outra música, que estava tocando nas rádios de Curitiba, com um dueto de violão que ficava no meio do caminho entre Toquinho e alguma coisa mexicana, porém mais clássico, mais trabalhado", detalhou.

No entanto, assim como em suas escolhas profissionais, Scaff sofreu retaliações.

"Para mim ficou legal, mas teve gente na época que não compreendeu o arranjo. Eu fiquei muito triste. Passados uns cinco anos, um amigo me falou que o pessoal estava entendendo o meu arranjo, que no Rio de Janeiro estavam ‘sacando’ o que eu fiz. Achei interessante – imagina, cinco anos depois!", comentou, aos risos.

Scaff ainda se valeu de sua experiência para comentar o atual cenário do gospel nacional. Para ele, o gênero progrediu musicalmente, mas, em poesia e espiritualidade, o panorama é de retrocesso.

"Eu classifico a música de adoração em dois estilos: a adoração propriamente dita e a celebração. O que a gente vê é que as poesias de adoração, hoje, são postas em estruturas melódicas de celebração. Isso dificulta o adorador a realmente se concentrar. Outra coisa são as repetições que sugerem um estilo mântrico", criticou.

E ele prosseguiu:

"Tudo isso, para mim, é reflexo de duas coisas: falta de conhecimento da Palavra de Deus e falta de exemplo de vida. Muitas vezes, o suposto adorador é um impostor, que está com a vida totalmente torta, não tem temor de Deus e está aproveitando um momento. Isso é uma coisa muito séria", lamentou.

Scaff e Tavares também conversaram sobre outros temas, como os 500 anos da Reforma Protestante, corrupção no Brasil, Operação Lava-Jato e o trabalho do guitarrista na Recall Gospel Band, que inclui músicos evangélicos atuantes no mercado secular.

Confira abaixo, na íntegra, a mais recente edição do OFTV.

Elvis Tavares é advogado, pós-graduado em Propriedade Intelectual pela PUC/RJ, cantor, compositor, produtor, escritor, radialista e manager da Efrata Music

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