MÚsica Gospel

POR ELVIS TAVARES
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Carlinhos Félix, sobre Rebanhão: 'Críticas foram nossa maior divulgação'

Publicado em 29-03-2017

Texto: Redação Efrata Music

Tags: cantores(as) e bandas  história da música gospel  

Carlinhos Félix, Pedro Braconnot e Paulo Marotta, membros da formação original do Rebanhão, decidiram retomar o grupo após um hiato de 17 anos Carlinhos Félix, Pedro Braconnot e Paulo Marotta, membros da formação original do Rebanhão, decidiram retomar o grupo após um hiato de 17 anos

Trinta e seis anos se passaram desde o lançamento de Mais doce que o mel, álbum que, com letras pouco ortodoxas para o começo dos anos 1980 e ritmos que iam do baião ao rock progressivo, fez o Rebanhão marcar a música gospel numa época em que usar barba e tocar bateria era proibido em muitas igrejas.

Os tempos mudaram e com eles os costumes, mas uma coisa ficou intacta: a sinceridade com que os integrantes da banda, criada no fim dos anos 1970 por Janires (morto em acidente automobilístico em 1988), encaram a profissão de músico e o meio evangélico. Ainda comemorando 35 anos de formação, completados em 2016  - o retorno, após um hiato de 17 anos, rendeu a gravação de um DVD ao vivo previsto para ser lançado no primeiro semestre -, o Rebanhão do século 21 tenta conquistar os jovens que talvez nunca tenham ouvido seus discos de vinil (ou qualquer outro), ao mesmo tempo em que volta a encarar momentos polêmicos de seu passado.

A atual escalação da banda tem Carlinhos Félix, Pedro Braconnot e Paulo Marotta, todos membros da formação original. O trio esteve no programa Onde os Fracos Têm Vez do último sábado (25/03), lembrando passagens importantes das mais de três décadas de estrada.

Perguntando pelo apresentador Elvis Tavares como o Rebanhão assimilou as vaias em uma programação da gravadora Doce Harmonia - que lançou o LP Mais doce que o mel em 1981 - no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, Carlinhos Félix confessou, com naturalidade e bom humor, que as críticas contribuíram para o sucesso do grupo.

"Tocávamos em muitos lugares em que havia essas reações. A gente ficava meio chateado, a princípio, mas depois ria. Quando pararam de criticar o Rebanhão, quando pararam de falar mal, a gente até ficou triste, porque a maior divulgação que tivemos foram as críticas, as perseguições. Depois que pararam de criticar e perseguir, perdeu a graça, 'deu ruim'", disse Carlinhos Félix, aos risos.

Com a mesma honestidade, o músico comentou os vetos que o grupo sofreu de igrejas pentecostais, no começo da carreira, por causa da barba que ele usava - o visual era contra a doutrina de muitas denominações na época. Carlinhos era o único integrante do Rebanhão barbado na foto da capa do primeiro LP.

"A gente não ligava muito [para os vetos]. Quando a gente escrevia, escrevia o que vivia. Quando cantava, cantava a nossa alegria. E se vestia e se portava do jeito que se sentia à vontade e confortável. A gente se preocupava com o nosso caráter, com o nosso testemunho e em falar a verdade, sem heresia. Tudo era motivo de polêmica nas letras do Rebanhão, mas heresia a gente não falava. Tínhamos medo de ir contra a Palavra de Deus", afirmou.

Grupo foi pioneiro em rádios populares

Muito antes de Regis Danese, o Rebanhão abriu caminho para a música evangélica em rádios populares - movimento que começou a se fortalecer já no segundo álbum, Luz do mundo, produzido pela extinta gravadora Arca Musical Evangélica, em 1983, mas só atingiu o auge em 1986 e 1987, com Semeador e Novo dia, respectivamente, lançados pela multinacional Polygram (atual Universal Music). Entretanto, ao mesmo tempo, o grupo sofria rejeição de parte da mídia evangélica.

Essa dualidade parece não ter incomodado Paulo Marotta. Para ele, a abertura ao Rebanhão no meio secular foi ao encontro do propósito evangelizador do grupo.

"A mensagem é falar de Jesus para pessoas que precisam ouvir, sejam de dentro ou de fora da igreja. A gente não pode limitar [o som do Rebanhão], tentar enquadrar, colocar em quatro paredes. A nossa proposta sempre foi sair [da igreja]. E deu certo. Com Luz do mundo e todos os outros discos, a gente conseguiu alcançar alguns lugares que ainda não tinham sido alcançados", avaliou.

Pedro Braconnot, o único que fez parte de todas as formações do Rebanhão, destacou a importância do radialista Paulo Cezar Graça e Paz para alavancar o início da banda e facilitar a aceitação entre os jovens da época.

"O Graça e Paz, na época da rádio Boas Novas [emissora AM do Rio de Janeiro popular nos anos 1980], foi o cara da mídia que incentivou o Rebanhão desde o começo. Foi ele que conseguiu a gravadora Doce Harmonia. Ele fazia eventos na Quinta da Boa Vista, no Teatro Boas Novas, e a gente sempre estava junto. Também era um cara evangelista, que gostava de pregar, e eu creio que Deus usou muito isso para a expansão do Evangelho no Brasil. Esse trabalho do Graça e Paz e do Rebanhão foi um dos marcos entre os jovens, quebrou o estigma de uma coisa muito fechada, fundamentalista. Virou uma coisa moderna e jovem", explicou.

Ao longo do programa, foram tocadas várias músicas dos nove álbuns de estúdio do Rebanhão - o mais recente e último antes do hiato, Vamos viver o amor, lançado em 1999 pela RB Studio. Em canções como Baião, Taça de cristais, Semeador, Casa no céu e Primeiro amor, é possível perceber o mar de referências musicais nos quais o grupo sempre se banhou, que engloba do rock progressivo de bandas como Rush, Pink Floyd e Emerson, Lake and Palmer até a MPB do Clube da Esquina, passando pelo sotaque nordestino de Luiz Gonzaga e a irreverência de Raul Seixas.

"Recebemos influência da música de uma maneira geral. A gente procura não rotular, porque música é dom de Deus. O que vale é a letra que vai dentro dela, como um perfume precioso num invólucro legal", metaforizou Paulo Marotta, apontando o principal desafio do Rebanhão:

"A questão é conquistar a nova geração, se conectar com eles [os jovens], embora eu ache o conteúdo [produzido pelo grupo] superatual. É incrível como passou o tempo e as letras continuam atuais."

Na entrevista, também foram abordados temas como política (mote da música Palácios) e as motivações dos músicos para o retorno. Confira abaixo a íntegra do programa.

Elvis Tavares é advogado, pós-graduado em Propriedade Intelectual pela PUC/RJ, cantor, compositor, produtor, escritor, radialista e manager da Efrata Music

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